Estudo Bíblico O Conceito de Destino em Paulo


       A Bíblia na versão Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida, assim como a versão Revista e Atualizada, utiliza a expressão “predestinar” para a tradução da expressão grega “proorizo”, que encontramos em Romanos 8.29-20. Ora, o conceito que Paulo trabalha aí já estava presente no Antigo Testamento e é a idéia de destino conforme Isaías 65.11-12.
 
“Mas alguns de vocês se afastam de mim, desprezam o meu monte santo e fazem ofertas de comida e de vinho a Gade e a Mani, os deuses da sorte e do destino. Pois então o destino de vocês será morrer à espada: eu farei com que todos fiquem de joelhos para serem mortos. Pois eu os chamei, mas vocês não responderam, eu lhes falei, mas vocês não deram atenção. Pelo contrário, fizeram o que me desagrada, escolheram coisas que me aborrecem”.  Isaías 65.11.12
 
       O verbo grego utilizado na Septuaginta é “paradidomi” e traduz e idéia de entregar à condenação. Mas destino também aparece no evangelho de Lucas (22.29), quando Jesus diz “eu vos destino o Reino, como meu Pai destinou a mim”. O verbo grego aí é “diatithemai” e traduz a idéia de dispor através de uma aliança. Assim, a idéia de destino já estava presente nas Escrituras em dois sentidos: um negativo, de culpa e condenação, e outro positivo, de aliança ou testamento.
       Mas, sem dúvida, o conceito de destino negativo, de culpa e condenação, fazia parte da cultura do helenismo e é o que levará Paulo a discutir a questão em suas epístolas. No mundo hebraico palestino a idéia de destino não tem a força e presença que encontramos no mundo grego, já que nas Escrituras hebraicas o que encontramos é a espiral conceitual de aliança, fidelidade e constância, cujo centro epistemológico é a autonomia da consciência humana. Nas Escrituras cristãs o vértice da espiral é o conceito de destino, que é trabalhado pelo apóstolo Paulo principalmente no texto de Romanos 8.31-39.
 
”Diante de tudo isso, o que mais podemos dizer? Se Deus está do nosso lado, quem poderá nos vencer? Ninguém! Porque ele nem mesmo deixou de entregar o próprio Filho, mas o ofereceu por todos nós! Se ele nos deu o seu Filho, será que não nos dará também todas as coisas? Quem acusará aqueles que Deus escolheu? Ninguém! Porque o próprio Deus declara que eles não são culpados. Será que alguém poderá condená-los? Ninguém! Pois foi Cristo Jesus quem morreu, ou melhor, quem foi ressuscitado e está à direita de Deus. E ele pede a Deus em favor de nós. Então quem pode nos separar do amor de Cristo? Serão os sofrimentos, as dificuldades, a perseguição, a fome, a pobreza, o perigo ou a morte? Como dizem as Escrituras Sagradas: "Por causa de ti estamos em perigo de morte o dia inteiro; somos tratados como ovelhas que vão para o matadouro." Em todas essas situações temos a vitória completa por meio daquele que nos amou. Pois eu tenho a certeza de que nada pode nos separar do amor de Deus: nem a morte, nem a vida; nem os anjos, nem outras autoridades ou poderes celestiais; nem o presente, nem o futuro; nem o mundo lá de cima, nem o mundo lá de baixo. Em todo o Universo não há nada que possa nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor”.  Romanos 8.31-39
 
       Paralelamente ao pensamento hebraico, a cultura grega apresentou uma leitura diferente do conceito de destino, que traduzia a maneira de pensar e viver do helenismo. Na sua época, por razões apologéticas, o apóstolo Paulo apresentou um conceito de destino que resgatou e transcendeu o conceito veterotestamentário de aliança. Entre os gregos, a religião e os cultos de mistérios traduziam uma luta contra o destino, numa tentativa de colocar-se acima dele. A origem dos cultos de mistérios não pode ser entendida quando os vemos apenas como mitos. Para o ser humano helênico a luta com o destino era inevitável porque o destino tinha qualidades demoníacas. Era um poder sagrado e destrutivo. Envolvia o ser humano numa culpa objetiva. Os cultos de mistério, dessa forma, ofereciam uma purificação das mãos de deuses que manipulando o destino excluía do ser humano qualquer possibilidade de liberdade.
       Assim, também a filosofia grega, através da busca da sabedoria, procurava elevar o ser humano à transcendência, despojando-o dos objetivos e formas da vida imediata, para lançá-lo através da abstração em direção ao ser puro. O mundo helênico era um mundo de culpa objetiva e castigo trágico e um profundo pessimismo atravessava todo o conhecimento, desde Anaximandro, passando por Pitágoras, Demócrito, Sócrates, Platão e Aristóteles. Apesar dessa visão trágica, os gregos eram apaixonados pela vida e é esse paradoxo que dará riqueza a essa que foi uma das mais expressivas culturas da humanidade.
     Mas, em última instância, a luta do filósofo permaneceu inalterada em todo o helenismo: superar o destino. E isso foi tentado através do domínio do pensamento, como forma de elevar-se acima da existência, já que no campo da ação e da transformação da existência é impossível superar o destino. No entanto, nunca essa meta foi alcançada. Possibilidade e necessidade foram conceitos chaves nas discussões do helenismo pós-platônico. Assim, o medo dos demônios obscureceu o espírito helênico. O epicurismo tentou, em vão, libertar seus seguidores do medo, mas ao definir o conceito de possibilidade absoluta, ou azar, abriu o espaço para o medo em sua argumentação filosófica.
     Dessa maneira, a filosofia grega caminhou para ceticismo, já que a busca de uma certeza transcendente para a existência humana se mostrou nula. Ao mesmo tempo, enquanto força sobre-humana do destino, as nações eram submetidas ao poderio romano. Diante desse destino trágico, o mundo helênico tinha necessidade da revelação. Ameaçado por um destino demoníaco, o mundo helênico ansiava por um destino salvador, necessitava de graça.
       O cristianismo é a vitória sobre a idéia da força da matéria, que se opõe eternamente ao ser humano, e traduz a idéia de que o universo é uma criação divina. O cristianismo é a vitória da crença na perfeição do ser em todos seus aspectos sobre o medo trágico e a matéria que resiste hostil ao divino. É a negação radical do caráter demoníaco da existência em si. Dá a existência um valor essencialmente positivo e valoriza os acontecimentos da ordem temporal. Com o cristianismo, ao contrário do que pensava Anaximandro, a ordem do tempo não leva apenas ao transitório e perecível, mas também à possibilidade de algo totalmente novo, um propósito e um fim que dá pleno significado à vida humana.
       No cristianismo o tempo triunfa sobre o espaço. O caráter irreversível do tempo bom, kairós, substitui o tempo cíclico, transitório e perecível do pensamento helênico. A partir desse momento, destino outorga graça, que traz salvação no tempo e na história. O mundo helênico e sua interpretação da vida estão superados e com eles, a filosofia, a religião e os cultos de mistério. Antes, a filosofia buscava desesperadamente a revelação, agora a revelação apodera-se da filosofia dando origem à teologia cristã. Assim, a teologia jogou fora o destino demoníaco e se apropriou das formas lógicas e dos conteúdos empíricos da filosofia grega. O transitório e perecível da filosofia grega não teve importância na formação do pensamento cristão ocidental, mas sim a idéia da criação divina do mundo e a fé numa providência divina, através da salvação que se constrói historicamente e acontece num tempo bom. E isso já não é helenismo, mas antropologia teológica cristã.
       Mas voltemos um pouco atrás, para entendermos esse processo. Dentro da visão paulina, que traduz o pensamento cristão palestino, destino, no sentido de que os limites estão dados de antemão, é a lei transcendente na qual está imbricado o conceito de autonomia da consciência humana. Assim, destino também implica numa trindade conceitual: (1) o destino está sujeito à liberdade; (2) destino significa que a liberdade também está sujeita à lei; (3) destino significa que liberdade e lei são interdependentes e complementares. Analisando o conceito cristão palestino de destino, exposto por Paulo em Romanos 8.31-39 e também no capítulo 9, podemos dizer que a autonomia da consciência humana está ligada às leis universais, de tal forma que liberdade e leis se encontram entrelaçadas. Aqui Paulo trabalha com um conceito judaico, de que lei é imposição de limites, que faz parte da revelação, que se expressa pela primeira vez como criação de Deus. Mas para Paulo, se a alienação é uma realidade que surge da dialética lei e graça, o julgamento é inerente a tudo na criação, mas também a liberdade.
       Mas a compreensão de destino para Paulo não pára aí. Além da trindade conceitual exposto acima, Paulo nos apresenta o destino como irrupção do kairós, enquanto correlação finito/infinito, que faz brotar um tempo carregado de tensão, de possibilidades, qualitativo e rico de conteúdo. Nem tudo é possível sempre, nem tudo é verdade em todos os tempos, nem tudo é exigido em todo momento.
       Por isso, em Romanos 8.31-39, Paulo nos mostra que mestres e poderes reinam em tempos diferentes, mas o Senhor triunfa sobre anjos e poderes e reina no tempo pleno de destino, que se estende entre a Ressurreição e a Segunda vinda. Ele reina no tempo presente que, em sua essência, é diferente dos outros tempos do passado. É nessa viva consciência da história que está enraizada a idéia de kairós, e é a partir dela que deve ser elaborado o conceito de uma teologia consciente da história. A idéia do kairós nasce da discussão com a utopia. O kairós comporta a irrupção da eternidade no tempo, o caráter decisivo do instante histórico enquanto destino. Mas kairós implica em consciência de que não pode existir um estado de eternidade no tempo, consciência de que o eterno é, em sua essência, aquele que faz a irrupção no tempo, sem, contudo, fixar-se nele.
       Assim, a certeza de que o destino kairótico supera o demoníaco está presente no pensamento do apóstolo Paulo. Esse destino kairótico, que tem um significado realizador e não destruidor, é a peça chave do pensamento do apóstolo, que coloca o Logos acima do destino. Ao fazer isso, Paulo está dizendo que a compreensão do destino não está ao alcance do ser humano, nem pode ser submetido aos processos da racionalidade e da historicidade do pensamento humano. Mas esse Logos se reflete através de nossos pensamentos, e não existe ato do pensamento sem a secreta premissa de sua verdade incondicional. É isso que Paulo nos mostra em Romanos 12.2 e I Coríntios 2.16.
 
“Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele”.  Romanos 12.2
 
Como dizem as Escrituras Sagradas:
 
"Quem pode conhecer a mente do Senhor? Quem é capaz de lhe dar conselhos?".  I Corintios 2.16
Mas nós pensamos como Cristo pensa.

       Mas a verdade incondicional não está ao nosso alcance. Em nós humanos há sempre, na caminhada em direção à realização de nosso destino, o desafio da aventura e do risco. Rompemos o sentido trágico do destino demoníaco, a angústia diante da finitude, deslumbrados diante da infinitude, num caminhar de aventura e risco. E este é o único modo que a verdade pode ser revelada a seres finitos e históricos. Quando mantemos relação com o Logos e deixamos de temer a ameaça do destino demoníaco, aceitamos o lugar que cabe ao destino kairótico em nosso pensamento. Podemos reconhecer que desde o princípio o nosso pensamento esteve submetido ao destino e que sempre desejou livrar-se dele, mas nunca conseguiu.
       Tarefa teológica da maior importância, na análise cristã do destino, é saber relacionar Logos e kairós. O Logos deve alcançar o kairós. O Logos deve envolver e dominar as leis universais, a plenitude do tempo, a verdade e o destino da existência. A separação entre Logos e existência chegou ao fim. O Logos alcançou a existência, penetrou no tempo e no destino. E isso aconteceu não como algo extrínseco a ele próprio, mas porque é a expressão de seu próprio caráter intrínseco, sua liberdade. É necessário, porém, entender que tanto a existência como o conhecimento humano estão submetidos ao destino e que o imutável e eterno reino da verdade só é acessível ao conhecimento liberto do destino, à revelação.
       Dessa maneira, ao contrário do que pensavam os gregos, todo ser humano possui uma potencialidade própria, enquanto ser, para realizar seu destino. Quanto maior a potencialidade do ser, que cresce à medida que é envolvido e dominado pelo Logos, mais profundamente está implicado seu conhecimento no destino. E destino, aqui, deve ser entendido como chamado, missão: é servir ao Logos, num novo kairós, que emerge das crises e desafios de nossos dias. Quanto mais profundamente entendermos nosso destino, no sentido grego, metafórico, de “keimai”, estar colocado, ser proposto, e o de nosso mundo, tanto mais livres seremos. Então, nossa vida será plena de sentido e verdade.

Autor:  Pr Jorge Pinheiro
O Pr Jorge Pinheiro é Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela UMESP. Teólogo pela Fac. Teológica Batista de São Paulo e Jornalista pela Fac. de Ciências Sociais da Universidade do Chile.