Estudo Bíblico Adoração Reformada

João 4:21-24


Muitos crentes e igrejas, em todo mundo, estão redescobrindo a verdade a respeito da adoração reformada. Isso é uma providência maravilhosa da parte de Deus, mas na maioria das vezes essa verdade reformada se limita apenas à doutrina da salvação. Em outras palavras a reforma estancou no ponto referente às doutrinas da graça e não foi além, não progrediu para outras áreas, como por exemplo, a vida cristã e o culto cristão. Isto na verdade não é uma reforma plena porque a reforma verdadeira e plena atinge todas as áreas da plenitude e da vida dos cristãos e da Igreja. Quero falar sobre o tópico da necessidade de se trazer reforma para toda a área que diz respeito à adoração. Gostaria de tratar de três áreas deste tema. Na primeira gostaria de tratar da história da reforma da adoração. Em segundo lugar, do regulamento da adoração bíblica, e em terceiro lugar tratar das razões para termos uma adoração bíblica.

I) A Reforma da Adoração Bíblica

Quando os reformadores redescobriram o evangelho bíblico, eles também perceberam a necessidade da redescoberta da adoração bíblica. Quando perceberam a salvação em termos de glorificar a Deus, nos termos da centralidade de Deus, então perceberam que a adoração resultante disso também deve ser uma adoração centrada em Deus e que glorifique a Deus. Eles viam tantas coisas e acréscimos humanos colocados na adoração a Deus como os altares, vestimentas, velas, outros sacramentos, incensos, etc. e para retornar a uma adoração centrada em Deus eles tinham de jogar fora todos aqueles acréscimos humanos. Martinho Lutero iniciou este processo. Zuínglio, Martin Bucer e Calvino continuaram depois dele. Cada um deles ia jogando fora mais e mais aquilo que pertencia à imaginação humana e trazendo mais e mais aquilo que era centrado em Deus. Eles entenderam que nesta área da adoração, a melhor forma de se centralizar em Deus era se centrando na Palavra. Quando eles jogaram fora tudo que era feito pelo homem, isso deixou um vácuo a ser preenchido. Dentro deste vácuo eles tinham de colocar a adoração centrada na Palavra de Deus.

Vamos inicialmente focalizar esta área dos cânticos de louvor. A Reforma passou por dois estágios na reforma dos cânticos na Igreja. Em primeiro lugar, Lutero foi o pai do cântico congregacional. Ele viu que por mais de mil anos na Igreja os cânticos estavam nas mãos dos corais, dos monges e das freiras e não nas mãos do povo de Deus. Uma das primeiras coisas que Martinho Lutero fez em 1524 foi introduzir na Igreja o uso do hinário. Lutero deu de volta ao povo de Deus o cântico congregacional. Eles não precisavam mais vir ao culto vendo-o apenas como uma forma de performance, mas eles vinham para participar. A segunda etapa foi com Calvino. Lutero restaurou o louvor congregacional, mas Calvino restaurou a cântico bíblico. Calvino via que na igreja primitiva, início do Novo Testamento, a igreja cantava os salmos. Ele percebeu que o coração não apenas deve ser guiado pela Bíblia, mas que a adoração deve ser repleta de Bíblia e que o cântico na adoração bíblica não precisa apenas ser guiado pelos princípios bíblicos, mas deveria ser cheio de conteúdo bíblico. Então, Calvino reintroduziu o saltério na igreja de Cristo. Para Calvino a adoração a Deus deveria ser o encontro com a Palavra, a leitura da Palavra, a pregação da Palavra, o cântico da Palavra. Tudo tinha de ser centralizado na Palavra de Deus. Esta é uma breve história da reforma do culto bíblico.

II) A Regulamentação da Adoração Bíblica

Todo cristão tem alguma regulamentação acerca da adoração. Todo crente coloca uma “linha” (limite) em algum lugar no culto. De um lado da linha há uma adoração aceitável e do outro lado da linha uma que é inaceitável. Todos nós estamos de acordo que existem algumas coisas que são boas para o culto e outras que não devem existir no culto. A única questão é: Como e onde vamos colocar esta “linha” demarcatória? Qual a regra que vamos seguir para saber qual é o aceitável e o inaceitável? Deixe-me dar algumas regras que são usadas em nossos dias. Todos nós temos alguma destas regras.

a) O Passado. “Sempre foi assim!”. E se foi suficiente para as pessoas do passado, será bom para nós também hoje. Nossos pais adoraram assim então nós adoraremos assim. Dessa forma o passado é a regra para o presente.

b) A Preferência. É a regra do que eu gosto, do que eu quero e do que eu acho agradável. Eu gosto assim; eu me sinto bem com isso; isso está de acordo com minha personalidade. É a minha preferência.

c) Pragmatismo. Funciona, atrai pessoas e é popular? Então, vamos fazer assim! Não fazer de outra forma porque isso não seria popular e não atrairia as pessoas. Assim, nossa regra é o pragmatismo: o que funciona.
d) Proibição. Tudo é permitido desde que não seja explicitamente proibido na Palavra de Deus. Esse foi o princípio que Lutero usou. Ele basicamente disse: Se a Bíblia não proíbe as velas, então podemos usá-las e assim por diante. Então, se não houver uma clara proibição, podemos fazer. A Bíblia não proíbe em nenhum lugar a dramatização no culto, então pode-se usar o drama, o teatro e assim por diante.

Eu diria que estas são as quatro regras mais usadas hoje pelas pessoas para saber o que devem fazer no culto. Mas a pergunta a ser feita é: isso é Bíblico? A resposta é: Não! Então, qual é a regra bíblica? É a regra usada por Calvino que a descobriu na Palavra de Deus: Somente aquilo que é ordenado na Bíblia deve ser permitido no culto a Deus. Verdadeira adoração é adoração ordenada nas Escrituras conforme a vontade de Deus. Se não for ordenado, não é autorizado. A Bíblia ordena dramatização, teatro, no culto? Não. A Bíblia ordena o uso de velas? Não. A Bíblia ordena o uso de vestimentas clericais? Não. Então, temos aqui a regra mais radical de todas. É o Princípio Regulador. Mas, de certa forma nós podemos dizer que todas aquelas regras são “princípios reguladores”. Todas elas regras regulam o culto. Então, todos nós temos algum tipo de princípio regulador. Então a pergunta é: Será que este nosso princípio regulador é o Princípio Regulador da Bíblia? O Princípio Regulador bíblico, como podemos demonstrar, é a prescrição. Somente aquilo que foi ordenado é permitido. Quando estamos considerando nossa adoração, é esta a pergunta que devemos fazer: Deus ordenou isso? Não devemos perguntar: Ele proibiu isso? Isso foi sempre feito assim? Gostamos disso? Também não devemos perguntar, “isso funciona?”. E assim por diante.

Por que Deus fez assim com oculto? Em parte é porque temos corações pecaminosos e corruptos. Nossos corações não são confiáveis! E não podemos confiar em nossos corações para acharmos a forma correta de adorar a Deus. Por isso Deus nos deu direcionamento suficiente para que sigamos. E este direcionamento é uma direção externa a nós. Deus tem o direito de decidir como Ele mesmo quer que seja adorado. Pense no presidente do Brasil. É ele que decide como funciona seu governo, como as pessoas devem se aproximar dele. Ele decide o cerimonial para receber as pessoas. Se nós desejamos agradá-lo, então vamos seguir tudo aquilo que ele determinou. E se os governadores humanos fazem assim, quanto mais o Rei dos Reis e o Senhor dos Senhores. De onde tiramos isso na Bíblia?

Vejamos em Levítico 10. 1-3:
“Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara. Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR. E falou Moisés a Arão: Isto é o que o SENHOR disse: Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo. Porém Arão se calou” (Lv 10:1-3).

Vejamos aqui a frase-chave, no final do v. 1: “o que lhes não ordenara”.

Estes homens eram religiosos e adoradores; tinham boas intenções e provavelmente eram sinceros, mas fizeram o que não havia sido ordenado por Deus.

E também em 1 Crônicas 15.13:
“Pois, visto que não a levastes na primeira vez, o SENHOR, nosso Deus, irrompeu contra nós, porque, então, não o buscamos, segundo nos fora ordenado”.

Lembramos que aqui Davi e o povo de Israel tentaram levar a arca da aliança e isto era uma coisa boa; estavam com muita sinceridade, tinham boa motivação. Mas eles não fizeram segundo as ordenanças de Deus. Por isso, quando Uzá tentou tocar na arca, Deus o matou. Assim eles disseram: “não o buscamos, segundo nos fora ordenado”. Podemos ver a mesma coisa com o Rei Jeroboão e o Rei Uzias que foram castigados por terem adorado a Deus de uma forma que Ele não tinha ordenado. Deus tem nos dado muitas advertências sobre o que Deus nos fará se não respeitamos aquilo que Ele tem definido. Quando nós realmente abraçamos este princípio de que somente aquilo que Deus tem ordenado é legítimo no culto, o que sobra?

A Confissão de Fé de Westminster inclui estes dois versículos citados, no 2º Mandamento da Lei e no Capítulo XXI, I (Do Culto e do Dia de Repouso) afirma:

“Mas a forma aceitável de cultuar o Deus verdadeiro é instituída por sua própria vontade revelada, de modo que ele não pode ser cultuado segundo as imaginações e invenções humanas, nem segundo as sugestões de Satanás, sob alguma representação visível, ou por qualquer outra forma não prescrita na Sagrada Escritura” (CFW).

Veja o que lemos aqui. Nós não podemos adorar a Deus usando ídolos ou qualquer outra forma não ordenada na Palavra. Mas alguém poderia dizer; “Eu nunca iria adorar a Deus com ídolos”, mas aqui a Confissão de Fé de Westminster reúne o ensino bíblico sobre este assunto e diz que qualquer adoração que não encontra prescrição ordenada por Deus na Palavra, é idolatria. Não é que você está adorando ao Deus errado, mas a questão é que você está adorando a Deus de forma errada; de uma forma não ordenada nas Sagradas Escrituras. Então, podemos usar isso também na área do louvor, nos cânticos, porque podemos aplicar este princípio a todas as áreas do culto. Do início até o fim, Deus tem ordenado esta área ou aquela; Ele ordena isto e aquilo. E nos cânticos de louvor, o que Deus nos ordenou a usar? Segundo o pensamento dos reformadores, Deus nos ordenou o cântico dos Salmos. No Velho Testamento temos exemplos dos Salmos sendo cantados, mas também no Novo Testamento. Por exemplo, Colossenses 3:16 ? “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”e Efésios 5:19. À primeira vista, vendo estes versículos você pode dizer: “Então eu posso cantar não apenas Salmos, mas outros cânticos também”. Temos duas coisas a dizer em resposta a esta afirmação:

1) Os títulos dos Salmos do Velho Testamento

Primeiro, vejamos os títulos dos Salmos do VT. Eles são traduzidos em grego (na Septuaginta) usando estes três títulos colocados nestes versículos citados. Quando Paulo está falando deste cantar os “salmos, cânticos e hinos espirituais”, ele está se referindo ao livro de Salmos que contém “salmos, hinos e cânticos espirituais”. Esta expressão, “cânticos espirituais”, significa cânticos do Espírito Santo ? Cânticos inspirados pelo Espírito Santo. Pelos títulos dos Salmos, nós entendemos que Paulo está dizendo: “Salmos, Salmos e mais Salmos”.

2) Exemplo do Novo Testamento

A segunda coisa é o exemplo que temos no NT. Por exemplo, Mateus 26.30: “E, tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras”. Veja: “... tendo cantado um hino”. Aqui Jesus estava sentado com seus discípulos na última Ceia Pascal e na primeira mesa da Santa Ceia.

Mais uma vez hino, no grego, significa Salmo. Naquela época, esta era uma prática bem conhecida na igreja judaica. Quando os judeus estavam celebrando a páscoa, eles cantavam os hinos pascais. Esses hinos pascais nós os encontramos dos Salmos 113 ao 118. Jesus cantou com seus discípulos estes hinos. Um comentarista disse que o canto destes Salmos de Hallel, por Cristo e seus discípulos na noite da Sua traição, marca o momento no qual o saltério passa da antiga dispensação para a nova dispensação, porque acompanhou a última celebração da páscoa e a primeira celebração da Santa Ceia do Senhor. Neste versículo Jesus está dizendo que estes mesmos Salmos do Antigo Testamento são adequados e suficientes no Novo Testamento.

Então, como vimos antes, no Velho Testamento nós temos prescrição e exemplo. Mas também no Novo Testamento nós temos prescrição e exemplo. Vemos, portanto, como os reformadores restauraram o Princípio Regulador do culto. Sendo assim, o culto precisa ser algo ordenado hoje.

Recentemente li uma citação de Ray Lanning que é um perito reformado neste assunto de culto e ele dizia: “Das muitas mudanças implementadas pelos reformadores, nenhuma foi mais dramática do que a mudança do culto público”. Calvino disse: “Todo serviço a Deus que é inventado pelo cérebro do homem na religião de Deus sem o Seu expresso mandamento é idolatria”. Estas palavras são bem sérias.

III) As Razões do Culto Bíblico

Por que tudo isso é importante? Por que estamos enfatizando estas coisas? Por que Deus deseja assim?

1º) Primeiro, porque seguindo este padrão bíblico, conseguiremos ter simplicidade. Todas as decisões sobre o que deve existir no culto se tornam tão simples. Não importa quantas pessoas, sejam elas jovens ou velhas, cheguem dizendo: “Esta é uma idéia ótima para o culto”. Nós não precisamos consultar o passado, não precisamos perguntar se isso vai ser popular, não precisamos perguntar se isso vai funcionar, não é necessário procurar na Bíblia para ver se há uma provisão, mas simplesmente perguntar: “Isso foi ordenado? Isso é requerido?”. Simplicidade! Realmente isso iria simplificar de forma impressionante os cultos de adoração nas igrejas.

2º) Um segunda razão é a espiritualidade. A igreja Católica Romana chegou a ter um sistema de culto tão complexo que o povo ficava vendo apenas aquilo que é externo na adoração. Eles esqueceram que Deus quer ver nosso coração e que é necessário que o culto seja espiritual. Quanto mais tornamos complexo nosso culto, mais externo, mais exterior ele se torna. Mas se tiramos tudo que apela aos nossos olhos e nossos sentidos, nossa visão, nosso tato, então chegarem a ter algo bem simples. Assim podemos no focar no coração e não naquilo que está lá fora. Por isso os reformadores pintaram de cal todas as igrejas, por dentro e por fora. Tiraram todas as janelas com seus vitrais coloridos; aboliram todas as vestimentas clericais; todos os incensos e sinos; tudo que impressionava os olhos. “Vamos simplificar”, eles disseram “para que o povo possa novamente adorar de coração. Isso melhora a espiritualidade”. Já participei de reuniões onde a adoração foi tão extravagante, impressionante aos olhos e aos ouvidos. De fato isso tem sido demasiado para ser provado, vivenciado. Nestas adorações os sentidos têm sido tão estimulados que nos faz perguntar se aqui está sendo realizado um culto que parte do coração.

3º) A terceira razão é a unidade. Qual é a conseqüência quando as pessoas estão seguindo várias regras quanto ao culto? A consequência é a divisão da igreja de Cristo! Cada igreja faz aquilo que agrada aos seus próprios olhos. Um dia você entra em uma igreja, outro dia em outra igreja, e percebe uma diferença enorme entre elas. Uma diferença tão grande que estas igrejas nunca chegarão a se reunir para adorar juntas. Todas aquelas regras não bíblicas têm levado a Igreja às chamadas guerras litúrgicas. Imaginemos se todas as igrejas no Brasil fechassem as suas portas e tivessem uma reunião a portas fechadas. Dissessem: “Vamos abrir a Bíblia e, baseados na Palavra de Deus, vamos decidir o que Deus ordena para estar presente em nossos cultos; se acharmos alguma coisa que é ordenada na Bíblia, isso estará presente; se não acharmos uma ordenança para determinada coisa, isso fica fora”. Não temos dúvida de que muitas coisas seriam colocadas fora. Mas, imaginemos se depois dessa decisão as portas fossem abertas e todos se reunissem para adoração uma conjunta. Todos eles estariam na “mesma página”. Talvez isso requeresse algum tempo, mas todos chegariam ao mesmo ponto. Isso uniria as igrejas de forma extraordinária e impressionante. Impressionaria o mundo, também. Isso impactaria o mundo mais do que nossas divisões estão fazendo.

4º) Uma quarta razão é a glória de Deus. Se nós dissermos: “Nós não somos confiáveis para dizer o que é apropriado para o culto; só Deus tem o direito de dizer o que é legítimo na adoração e eu me submeto a tudo aquilo que Ele ordena”. O que isso diz? Diz que Deus esteja em seu trono e eu esteja no pó! Isso dá a Deus o seu direito e nos torna seus servos. Assim Deus é glorificado.

Mais uma vez vamos nos focar apenas nos Salmos.

1) Podemos cantar os Salmos a Cristo. Quando lemos a palavra “Deus” ou “Senhor” ou “Rei”, nos Salmos, podemos cantar estas coisas a Cristo o Senhor, Cristo o Rei. Seus títulos e seus nomes se acham em todos os Salmos. Cristo o Criador, Cristo o Provedor, Cristo o Guia, Cristo o Defensor, e assim por diante... Então cantaremos estes Salmos de uma forma trinitariana.

2) Em segundo lugar podemos catar os Salmos de Cristo (acerca de Cristo). Quantos salmos estão profetizando sobre a vinda de Cristo a este mundo? Fiz uma lista rápida. Veja o Salmo 45:6 que fala da divindade de Cristo; Salmo 2:7 que diz que Ele é o Filho eterno; Salmo 8:5 que fala da encarnação de Cristo; os ofícios de Cristo como mediador, Salmo 40:9-10 e Salmo 110:4; Salmo 41:9, que fala da traição do Senhor; o julgamento de Cristo, Salmo 35:11; a rejeição de Cristo, Salmo 22:6; o sepultamento e rejeição de Cristo, Salmo 16: 9-11; a ascensão de Cristo, Salmo 47:5; a segunda vinda de Cristo, Salmo 50:3-4. Mas de fato Cristo não está nos Salmos, não é? Está ou não está? Muitos têm a vista curta. Todos os Salmos que estamos entoando, cantam Cristo. Nós cantamos a Cristo e nós cantamos de Cristo.

3) Em terceiro lugar cantamos por meio de Cristo. Quando estamos oferecendo um culto a nosso Deus, devemos oferecê-lo pela mediação de Cristo.

4) Em quarto lugar cantamos com Cristo. Que hinário Cristo usava quando neste mundo? Ele usava o livro de Salmos. Isso era o maná da Sua alma. Esses foram os salmos, os cânticos que sua mãe o ensinou a cantar. Foram os cânticos que Ele tinha na memória quando estava na Sinagoga; foram estes os cânticos que gradativamente lhe revelavam todas as implicações do seu trabalho como Mediador. Portanto, vemos que em momentos críticos e importantes de sua vida, estes Salmos surgem em seu coração. Estes Salmos edificavam sua própria alma. O primeiro Salmo que uma mãe judaica ensinava a seu filho era aquele que dizia: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”. Quais fora as últimas palavras que saíram da boca de Jesus? Veja o salmo 22 e o 69. Eles nos revelam tudo que estava se passando na mente e no coração de Jesus quando ele estava morrendo. Os Evangelhos nos revelam e relatam muitas coisas dos sofrimentos externos de Cristo, mas não chegam a nos informar aquilo que estava se passando no seu coração. Mas os Salmos nos informam disso. Mil anos antes do evento da morte de Jesus estes Salmos profetizam e nos predizem os pensamentos, temores e desejos que encheram o coração de Jesus. Então, quando estamos cantando os Salmos guardemos em nossas mentes o fato de que Cristo cantava estes Salmos, meditava neles. Onde e quando Cristo cantou estes Salmos? Como Ele cantou estes Salmos? Você não teria muito prazer e gozo em ouvir o próprio Cristo cantando estes Salmos? Por exemplo, não seria prazeroso ouvi-lo cantando as palavras do Salmo 118.17-19?

“Não morrerei, mas viverei; e contarei as obras do SENHOR. O SENHOR me castigou muito, mas não me entregou à morte. Abri-me as portas da justiça; entrarei por elas, e louvarei ao SENHOR”.

Veja o Salmo 69. 19-21:
“Tu conheces a minha afronta, a minha vergonha e o meu vexame; todos os meus adversários estão à tua vista. O opróbrio partiu-me o coração, e desfaleci; esperei por piedade, mas debalde; por consoladores, e não os achei. Por alimento me deram fel e na minha sede me deram a beber vinagre”.

São palavras muitíssimo emocionantes. Procure pensar em Cristo cantando estes cânticos no culto doméstico e em particular. Lemos de Cristo saindo à noite para o deserto para orar e clamar a seu Pai. Não teria Ele usado destas palavras em seus lábios santos? Não teria cantados todos estes cânticos com todo sentimento e paixão? Jesus cantava aquilo que Ele mesmo iria experimentar. Como Ele os cantou? Quando Ele os cantou? Ele era o salvador dos Salmos. Que privilégio podermos tomar estes mesmos cânticos em nossos lábios e podermos cantar com Cristo como Ele cantou. Ele cantou assim e nós cantamos também. Nós cantamos a Ele, nós cantamos Dele, cantamos por meio Dele e com Ele.

Deixe-me encerrar com algumas colocações finais:

1) Por que fazemos o que fazemos? Qualquer que seja o modo de nosso culto é preciso que entendamos o porquê estamos fazendo assim. Não é suficiente dizermos que sempre foi feito assim ou que todo mundo faz assim ou que nos agrada fazer assim, porque isso não é uma defesa contra a corrupção do nosso coração. A única defesa contra a corrupção do nosso culto é o seguinte: Isto Deus tem nos ORDENADO! Segure, entenda, examine e aplique este princípio e seja capaz de defender toda a parte da sua adoração à luz deste princípio.

2) Adore de verdade. Uma coisa é dar uma palestra sobre adoração. Uma coisa é lermos muitos livros sobre adoração, e pode se tornar até um perito no assunto de adoração. Mas você sabe adorar? Você se dobra a Deus? Em sua vida há uma adoração real, de coração a coração, ao seu amado Salvador?

3) Vamos ter a coragem de fazer uma reforma em nosso culto se assim for necessário. Lembram-se do que Jesus disse em Mateus 15.8-9: “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens”. Notem que não são os preceitos de Deus, mas de homens. Ele diz: “em vão me adoram”. Então, vamos ter a coragem de fazer uma reforma na adoração.

4) Vamos tentar persuadir outras pessoas. É esta a palavra correta: PERSUADIR. Mas não vamos agir de forma a destruir igrejas, mas vamos usar de gentileza, de forma sábia, gradativa, tentando ganhar as pessoas, tendo paciência com elas porque por muitas vezes elas foram abençoadas com outros hinos e corinhos em suas vidas. Você não deve esperar que de uma forma súbita elas entendam tudo isso, mas de uma forma gradativa, introduzindo mais e mais um culto bíblico. Um puritano, William Romaine, disse: “Eu sei que esta adoração é um ponto que dói, por isso eu vou tocar nele de uma forma muito delicada, com a maior gentileza que eu posso, na esperança de fazer algum bem”. Ninguém se achega a um ferimento para traumatizá-la no intuito de curar. Mas vai como uma mãe ou uma amável enfermeira, com muita habilidade e cuidado limpando e cuidando lentamente. Mantenha sempre na mente o grande propósito: Não apenas uma igreja pura e purificada, mas uma igreja unida e cheia de amor.

Existem duas formas eficazes para se persuadir e que são muito melhor do que todas as palestras que você possa dar: (1) Cante os Salmos com alegria no coração. (2) Se você é pastor pregue os Salmos. Se olhar para trás, para a história do culto bíblico, a época quando os Salmos caíram em desuso, essas épocas também coincidiram com o momento quando não se tinha a pregação de Cristo nos Salmos. Quando você estiver pregando Cristo nos Salmos será muito mais fácil persuadir o povo a cantar os Salmos para Cristo.

5) Em último lugar. Toda nossa adoração deve ser uma antecipação do céu. Deve ter um sabor do céu vindouro. Esse é o grande fim da adoração, nos levar ao céu e até trazer o céu até nós. Naquele dia quando não haverá mais nenhuma divisão e nenhum argumento restará e todo propósito da adoração aqui na terra deve ser para nos dá um pequeno sabor do céu vindouro. Esperamos e oramos que esta seja nossa experiência.

Autor: Dr. David Murray