Ouro e Fogo


Um encontro indesejável, porém necessário.

A pepita de ouro, em seu estado bruto, pode ser irreconhecível para a maioria das pessoas. Sua forma é irregular. Por estar coberta de sujeira, seu brilho é mínimo ou até ausente. Assim, ela é desvalorizada, desprezada, abandonada e esquecida. Contudo, a aparência não invalida sua essência. O especialista reconhece e valoriza seu potencial.

O garimpeiro escolhe a pepita entre tantas pedras do rio ou escava a terra à sua procura. Seu coração se alegra ao encontrá-la. Ela é separada e recolhida com todo cuidado.

A pepita pode ser lavada, mas esse ato remove apenas a sujeira exterior. Em seguida, ela é conduzida ao fogo que, com temperatura altíssima, derrete o ouro. Pode parecer que, ao final, nada restará. Seria o fim da pepita? De certo modo, sim. A mudança é tão drástica que o nome deixa de ser apropriado.

O calor do fogo faz com que o ouro se derreta, tirando-o de seu estado bruto e duro. Ocorre, então, a separação entre o precioso metal e as outras substâncias que estavam nele incrustadas. Muitas delas serão consumidas pelo fogo. Outras serão removidas.

Terminada a purificação, o ouro derretido, aceita a forma que o ourives desejar, seja ela qual for. O metal está totalmente flexível e maleável.

Ao final, o resultado será uma barra de ouro puro ou uma jóia preciosa. Agora, o ouro terá mais beleza, valor e utilidade.

Este processo ilustra bem a nossa experiência com Deus. Jesus veio ao mundo em busca do homem perdido que, como uma pepita de ouro, encontrava-se contaminado, por dentro e por fora.

Ainda que todos nos desprezem, o Senhor nos valoriza. Quando somos alcançados pelo evangelho, começa em nós um processo de transformação. Algumas mudanças são imediatas, mas outras podem demorar.

O sofrimento que nos sobrevém é comparado ao fogo.

"Para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (IPd.1.7).

As tribulações, que parecem destruidoras e ameaçam nos consumir, ajudarão no aperfeiçoamento do nosso caráter. As lutas da vida nos ensinam lições que, de outro modo, não aprenderíamos (Dt.8.3).

"Também gloriemo-nos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz perseverança, e a perseverança a experiência, e a experiência a esperança" (Rm.5.3-4).

Por meio do fogo, o Senhor vai retirando de nós aquilo que não condiz com a sua vontade. São males que não fazem parte da nossa alma, ainda que estejam nela arraigados.

A remoção dos corpos estranhos parece perda, mas é livramento.

Enquanto a sujeira sai, o peso diminui, mas o valor aumenta.

Quando estamos no fogo, pensamos que, ao final, nada restará. Não conseguimos entender ou controlar o que está acontecendo. Parece que chegou o nosso fim, mas é apenas o começo de uma nova fase.

Queremos evitar os sofrimentos da vida. Em alguns casos, isso pode ser possível, mas não completamente. Sempre que pudermos evitar o pecado, evitaremos também os sofrimentos que ele produz (IPd.4.15). Entretanto, muitas tribulações nos sobrevirão, ainda que não tenhamos cometido um pecado imediato ou diretamente relacionado a elas. O ouro precisa encontrar-se com o fogo. Afinal, não existe outra forma de purificá-lo a fundo. Através do sofrimento, não pagamos nossos pecados nem obtemos perdão, mas ele contribui para a nossa maturidade e mudança de caráter. O perdão é obtido pelo sangue de Jesus.

O Mestre disse aos discípulos: "No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo. Eu venci o mundo" (Jo.16.33). Cristo nunca pecou, mas, ainda assim, sofreu muito porque isso fazia parte do propósito do Pai, tendo em vista as características do seu ministério vicário.

Da mesma forma, nós que, na qualidade de igreja, somos o corpo de Cristo, não haveremos de ficar isentos da parte que nos cabe dos seus sofrimentos (Col.1.24). A cabeça não sofreria sem que o corpo também sofresse.

"Amados, não estranheis a ardente provação que vem sobre vós para vos experimentar, como se coisa estranha vos acontecesse; mas regozijai-vos por serdes participantes das aflições de Cristo; para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e exulteis. Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória, o Espírito de Deus. Que nenhum de vós, entretanto, padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se entremete em negócios alheios; mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus nesta parte" (IPd.4.12-16).

Se pudéssemos evitar todo sofrimento da vida, também evitaríamos o processo de purificação e aperfeiçoamento do caráter.

O apóstolo Pedro, em sua primeira epístola, enfatiza duas palavras: sofrimento e glória. O ouro, depois de passar pelo fogo, alcança a glória de se tornar uma jóia. Cristo, depois de passar pela cruz e pela sepultura, alcançou a ressurreição e a glória celestial. Assim acontecerá conosco. Isto não significa que seremos salvos pelo sofrimento. No caso do ouro, sua `salvação' aconteceu quando o garimpeiro lhe tirou da jazida ou do rio. Contudo, ali começava um processo para que ele alcançasse o melhor de seu potencial. Nós também sofremos para que o nosso caráter seja aperfeiçoado, de modo que nos tornemos cada vez mais parecidos com Jesus, vendo manifestar em nós o que podemos herdar e viver da natureza divina (IIPd.1.4).

O sofrimento do tempo presente pode parecer interminável, mas este não é o fogo eterno. O ourives está atento e retira o ouro do fogo assim que o processo tenha sido concluído. Existe um tempo determinado.

O que dissemos acerca do ouro permite-nos ilustrar os ensinamentos bíblicos sobre justificação, santificação e glorificação. Trata-se, respectivamente, de ato, processo e resultado. Essas três palavras resumem a obra de Deus em nós. Somos justificados por Cristo, santificados pelo Espírito Santo e seremos glorificados pelo Pai, no sentido de participarmos da sua glória, quando ao céu chegarmos.

Ninguém deve supor que a conversão encerre todo e qualquer sofrimento. Alguns acabam, outros continuam e ainda outros começam, por razões e propósitos diversos.

As tribulações que forem inevitáveis são necessárias. Não devemos reclamar, mas agradecer a Deus por elas. Estamos nas mãos do ourives celestial, que está nos tornando cada vez mais úteis, preciosos e agradáveis aos seus olhos.

|  Autor: Anísio Renato de Andrade  |  Divulgação: estudosgospel.com.br |