Os Dez Mandamentos - Jogando Limpo

Êxodo 20.15


O roubo no Brasil é assunto diário e variado na imprensa escrita e televisiva. Não só o roubo do ladrão que assalta à mão armada, como também o roubo do trabalho escravo das usinas de açúcar no interior do país e, empresas que produzem o carvão vegetal, entre outras; também os roubos na Previdência Social e na maioria das empresas governamentais, o roubo nos bastidores da política municipal, estadual e federal. Roubos para todos os tipos e gostos.

Contudo, este não é assunto só do século XX. É algo tão antigo quanto o próprio homem. É algo humano e não divino. A proposta do homem é roubar, ganhar o lucro fácil.

A proposta divina para o homem é: "não furtarás", e quando Deus liberta o Seu povo, quer que o mesmo viva esta proposta, mostrando ao mundo um novo tipo de sociedade.

Será que, como povo de Deus, estamos atendendo aos propósitos divinos? Será que estamos cumprindo plenamente o "não furtarás"? É o que veremos nas reflexões que se seguem.

Da leitura do oitavo mandamento e das Escrituras como um todo, podemos fazer as seguintes reflexões sobre o "não furtar":

1 - UM APELO À NAO-OPRESSÃO

O povo de Israel estava saindo do Egito. No Egito todas as terras pertenciam ao Faraó. Em Israel, o Senhor Deus queria mostrar um modelo alternativo e extremamente justo. O oitavo mandamento implica no direito de posse de propriedade privada.

"Furtar" subentende não só o roubo direto, mas também a aquisição de propriedade mediante o tirar vantagem da ignorância ou da fraqueza do próximo. O oitavo mandamento é fundamental para que a vida em sociedade seja mais justa.

O respeito à propriedade alheia é essencial para não existir a opressão. Israel era oprimido no Egito, sendo submetido a uma vida de escravidão. Não deveria fazer o mesmo em seus relacionamentos.

O sábio nos adverte: "Não tires vantagens do pobre só porque é pobre, nem se aproveite daqueles que não tiverem quem os defenda no tribunal. Pois o Deus Eterno defenderá a causa deles e ameaçará a vida de quem os ameaçar" (Pv 22.22,23 - BLH).

O rei Acabe oprimiu e roubou a vinha de Nabote, (I Rs 21.1 -16). "Não furtar" é um não à opressão. O homem é responsável perante Deus pelo uso que faz das suas riquezas.

Deve ter o respeito às propriedades (Dt 19.14), pagar os justos salários (Dt 24.15; Tg 5.1-6), ter pesos e medidas justas (Dt 25.13) e manifestar a máxima generosidade para com os pobres (Dt 15.7-11).

"Não furtar" não significa e "não se trata apenas de atos isolados de roubos entre pessoas; o mandamento condena qualquer sistema social que se estrutura a partir do roubo, seja o roubo da força de trabalho (salário mal pago), seja do produto do trabalho (impossibilidade de usufruir do fruto do próprio trabalho), seja ainda do direito ao descanso (lazer)" (Comentário da Bíblia - Ed. Pastoral).

Deus quer uma sociedade mais justa e fraterna. A Igreja cristã está sendo desafiada a cumprir, denunciar e lutar contra aqueles que não observam o oitavo mandamento, antes na prática do roubo, implantam um sistema social opressor que resulta na frase conhecida dos brasileiros: "o pobre cada vez mais pobre e o rico cada vez mais rico".

A sonegação fiscal, os muitos impostos no Brasil, o "jeitinho brasileiro", o empréstimo não devolvido, tudo isso é roubo e o Deus de Israel não fica passivo diante da opressão. A igreja cristã também não deve ficar (Is 5.8,9).

2 - UM APELO À HONESTIDADE

A honestidade é um imperativo da vida cristã. Não se pode admitir uma sem a outra. Quando o Senhor nos diz para "não furtar", Ele está dizendo que nós temos que ser honestos.

Não superficialmente honestos. Não tendo as mãos meramente puras de um crime, do roubo ou de um grave delito. Mas, perfeitamente honestos, de alma e coração puros.

O apóstolo Paulo recomenda a prática da honestidade quando diz: "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento" (Fp 4.8). "Não furtar" é ser honesto em todas as relações da vida.

O Senhor Deus, que tirara o povo do Egito, queria agora que Israel, como nação constituída, fosse o exemplo para as demais nações. A honestidade deveria ser "marca registrada" do povo. "Não furtarás" - essa era a ordem para aquela época que se atualiza cada vez mais para a igreja neste final de século.

A honestidade é virtude que autentica a vida cristã de cada indivíduo. Ela é virtude positiva e em nada mancha a reputação de um homem. Não podemos ter vergonha de ser honestos. Fomos chamados para isto e por isso o viver deve ser padrão (I Pe 2.12). Poderemos até ser perseguidos por sermos honestos, mas jamais por sermos possuidores de objetos alheios (I Pe 2.15,16).

Talvez você nunca tenha roubado nada de ninguém, mas se já agiu desonestamente em suas relações pessoais, já quebrou a lei de Deus. Seja honesto com você mesmo. Você pode enganar as pessoas, mas não pode enganar a Deus e a você mesmo.

"Não furtar" é um imperativo de Deus à honestidade de Seu povo. Diz o apóstolo: "pois o que nos preocupa é procedermos honestamente, não só perante o Senhor, como também diante dos homens" (II Co 8.21).

3 - UM APELO AO TRABALHO

Quando o apóstolo Paulo faz várias exortações aos cristãos para uma vida de santidade, ele diz: "Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado" (Ef 4.28).

"Não furtar" deve ser sempre para o cristão um incentivo ao trabalho honesto e esforçado. "Em vez de roubar o fruto do labor dos outros, o cristão deve trabalhar para seu próprio sustento. Mais do que isso, deve trabalhar de modo a ganhar 'para que tenha com que acudir ao necessitado ".

As riquezas do cristão, seus bens materiais e suas posses, devem ser conseguidos com o trabalho e, nunca, com negociatas e "maracutaias". A vida cristã autêntica é um apelo veemente contra esse tipo de vida, e é um incentivo enfático ao trabalho sincero. As Escrituras Sagradas trazem um farto ensino quanto a essa responsabilidade.

O quarto mandamento, o que nos fala do dia de descanso, diz: "Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra" (Ex 20.9; 34.21; Lv 23.3; Dt 5.13). O furto é agente de morte, mas o trabalho é agente que promove a vida. O trabalho apresenta o ideal de, a todo custo, produzir, manter e fazer crescer a vida e, ao mesmo tempo, ser oposição a todas as formas de morte ou diminuição da vida.

Por isso, a exortação paulina: "aquele que furtava, não furte mais, antes, trabalhe... " e promova o bem, promova a vida, acuda ao necessitado. A motivação cristã para o trabalho não é ter o suficiente somente para si e sua família, mas para compartilhar com aqueles que necessitam. "Dar torna-se a motivação de obter", diz Foulkes.

A igreja cristã cabe o desafio de praticar os mandamentos, mostrando ao mundo a nova organização social de Deus para os homens. "Não furtarás" deve ser sinônimo então de uma vida cristã profundamente comprometida com o trabalho. Estamos cumprindo esta ordem divina?
 

DISCUSSÃO

1. Não furtar trata-se apenas de atos isolados de roubos? Justifique.
2. Como tratar o problema da impunidade no Brasil?
3. A acumulação exagerada de bens é uma espécie de furto? Explique.

Autor: Rev. Aílton Gonçalves Dias Filho