O Toque das Trombetas


No Sermão da Montanha, Jesus não estabelece nenhumas instituições específicas de adoração. Tratando simplesmente com princípios, ele os ilustra com expressões da piedade religiosa já familiares aos seus ouvintes (note 5:23). Doação de esmolas, como oração e jejum, não eram nada novo para seus ouvintes. A lei de Moisés não deixou dúvidas quanto ao cuidado de Deus pelos pobres. Providências especiais foram tomadas quanto às suas necessidades (Êxodo 23:11; Levítico 19:9-10). Foi pronunciada uma bênção para àqueles que se lembrassem deles (Salmo 41:1) e uma maldição sobre os que não o fizessem (Provérbios 21:13). Entretanto, doar aos pobres, como todas as outras expressões de devoção a Deus, pode azedar-se, por um motivo perverso. A ausência de um coração voltado para Deus, naquilo que fazemos para outros polui tudo. Naturalmente, se o amor ao dinheiro é o problema de um homem, a doação de tudo que ele possui aos pobres poderia bem ser uma solução (Mateus 19:21), mas dar esmolas não é, necessariamente, uma resposta para o homem orgulhoso (1 Coríntios 13:3). Pode servir só para inflar seu já enorme ego. É a este assunto que Jesus se dirige na primeira das suas ilustrações da hipocrisia religiosa.

"Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti" (Mateus 6:2). Dois meios poderosos de conter presos os cães da auto-glorificação são dados aqui pelo Salvador. O primeiro é: não toque trombeta cada vez que você fizer algo bom. Isto é, não o anuncie aos outros. Não é provável que os hipócritas, aos quais Jesus se refere, fossem tão espalhafatosos ao ponto de tocarem, realmente, uma trombeta cada vez que passassem uma moeda a uma pobre alma. O Senhor está simplesmente usando uma figura de linguagem. Há outros modos mais sutis e mais efetivos de se obter publicidade para sua generosidade, sem parecer tolo.

Quando Jesus fala das "sinagogas" e "ruas" como sendo lugares populares para o exercício da generosidade hipócrita, ele não está dizendo que esses locais sejam impróprios para mostrar compaixão. Afinal, era justamente nesses locais muito freqüentados que os mendigos procuravam ajuda (João 9:1,8; Atos 3:2). Ele está antes atacando a disposição vangloriosa de alguns a representar exclusivamente em público.

Há, porém, uma forma mais sutil e mais perigosa desta moléstia do ego: a vontade de dar esmolas em esquinas quietas e anunciar isso mais tarde, bem de maneira descuidada. É sempre tão fácil, quando falando "compassivamente" das necessidades dos outros, mencionar sempre bem despreocupadamente o que fizemos por eles. Jesus nos adverte, em termos nada ambíguos, para mantermos a boca fechada sobre o assunto, contentes porque nosso Pai sabe.

Os cidadãos do reino são pessoas em busca do caráter piedoso, não de uma mera reputação de piedade. Entretanto, se a justiça do céu é do coração, ela não é monástica nem reclusa. Há manifestações óbvias e abertas de verdadeira religião e o discípulo do Senhor não faz nenhum esforço para esconder dos outros sua vida, porém não é para receber honra por ela que ele assim faz. Seu cuidado pelo pobre e o desafortunado é simplesmente uma extensão do amor compassivo do seu Pai.

"Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita" (Mateus 6:3). Deixar de anunciar nossas boas ações aos outros ataca o problema porém incompletamente. Conforme o escritor e pregador do quarto século, Crisóstomo, observou, "Podeis praticar boas ações diante dos homens e, entretanto, não procurar o louvor humano; podeis praticá-las em segredo e, entretanto, em vosso coração, desejar que elas possam vir a ser conhecidas, para ganhar esse louvor." É por esta razão que Jesus dá a segunda ordem: não a anuncie a si mesmo! Este é o ponto da metáfora do Senhor sobre as mãos. Nosso dar tem que ser totalmente sem auto-consciência, sem qualquer pensamento em algum crédito que seja lançado em nossa conta com os outros. Não devemos manter a conta (Mateus 25:37). Deus é quem fará isso.

Não há nada que mais envenene o manancial da verdadeira bondade para com os outros do que procurarmos, ao mesmo tempo, nossos fins em cada ato de bondade. Isso custa ao que o pratica todo o sentido de integridade, inteireza e paz da consciência, sem falar em toda a recompensa de Deus. Mas lembre-se de que tal hipocrisia é sutil, prendendo nossos corações quando menos o pretendemos ou o esperamos.

O maior exemplo desta mente desinteressada, não calculista, consciente de Deus, é Jesus. Sua paixão nunca foi para com ele mesmo. Ele entrou na História inteiramente para o benefício dos outros. Ele se fez carne, não para cumprir sua agenda, mas para cumprir as obras de seu Pai (João 5:19), para falar as palavras de seu Pai (João 7:16-18; 12:49-50) e para fazer a vontade de seu Pai (João 5:30; 6:38; 14:31). É justamente esse espírito de auto-negação que cada discípulo verdadeiro do Senhor almeja ter. É, quando praticado, a morte absoluta de toda a hipocrisia e falsidade. No coração onde Cristo e seu amor pelo homem dominam tudo não sobra lugar para o "eu".

Reflita. Sempre que você estiver agindo para aliviar as necessidades dos despojados e dos desafortunados e certa sensação de satisfação consigo mesmo e presunção começarem a rastejar sobre você, ou um desejo de que outros saibam quão nobre você é, preste atenção, e você ouvirá o clamor das trombetas troando.

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