O Que Representa Beber o Sangue de Cristo


Jó 6:53-60 "Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida.Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente. Estas coisas disse Jesus, quando ensinava na sinagoga de Cafarnaum. Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir"

Esta passagem relata o momento em que na sinagoga (templo judeu) Jesus falava aos seus ouvintes da necessidade de comer da Sua carne e beber do Seu sangue. Este discurso, longe de parecer uma pregação pró-canibalismo, era, sobretudo, um chamado a viver a vida de Cristo.

Todas aquelas pessoas que ouviam Jesus conheciam muito bem os preceitos da Lei judaica. Todos sabiam os moldes em que se dava o sacrifício de animais para o perdão de pecados. No período vetero-testamentário, quando os homens pecavam, o sacerdote os representava diante de Deus sacrificando um cordeiro sem mancha e sem mácula para que aquele animal pagasse com a vida pelos pecados do povo.

Hoje sabemos que Cristo é o Cordeiro de Deus que foi dado em nosso lugar. Recebemos a salvação através do Seu sacrifício vicário e compreendemos que sem o Seu sangue derramado o nosso fim seria a perdição. Mas mesmo para os discípulos aquele discurso de Jesus pareceu-lhes "duro demais".

O que será que tornava este sermão duro demais? O que diferenciava o sacrifício de Cristo do sacrifício praticado no Velho Testamento? Voltemos então àquele período para entendermos a razão do susto dos discípulos.

No Antigo Testamento, havia uma proibição explícita quando aos animais. "Somente empenha-te em não comeres o sangue, pois o sangue é a vida; pelo que não comerás a vida com a carne." (Dt 12:23). Comer a carne era receber as benesses do sacrifício, mas beber o sangue era algo proibido, porque o "o sangue é a vida".

Quando Jesus fala àqueles homens advindos do judaísmo e, portanto, cientes de todas as regras da Lei, Ele os diz não só para comer da Sua carne, mas também para beber do Seu sangue. Era aí que o discurso começava a parecer "duro demais"!

Comer a carne significa participar do sacrifício de Jesus, Beber o sangue de Cristo significa beber da Sua vida, pois como está em Dt 12:23 "o sangue é a vida". Receber a benesse do sacrifício vicário de Jesus, ou seja, a salvação, todos queremos, beber da Sua vida, entretanto, poucos desejam.

Quando celebramos a ceia do Senhor, ordenança que nos foi deixada pelo próprio Cristo, nós simbolizamos através do vinho e do pão a carne e o sangue do Cordeiro de Deus. Mas muito mais que um simples memorial, ser participante da mesa de Cristo, requer de nós que sejamos participantes da Sua vida.

Mt 16: 24 diz: "Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me."

A cruz é o ponto central do cristianismo porque para ela convergem todas as coisas, ela é o centro da história, nela passado, presente e futuro se integram. Na cruz Cristo nos justifica, santifica e nos garante a vida eterna. A cruz representa o ápice da humilhação do Deus que se fez homem para morrer pelo pecador. Mas a cruz de cristo não é somente a cruz dele, ela é também a cruz do que o segue.

"... Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me." Disse Jesus. Se entendermos a vida cristã somente como a vida daqueles que crêem na cruz, nós estaremos a entendendo pela metade. Nós não somente cremos na cruz, mas fomos também crucificados nela.

Carregar a cruz é negar-se a si mesmo, é tornar-se discípulo que imita o Mestre e mais que isso, é ter a própria vida do mestre em si. Beber o sangue de Cristo representa beber da vida dele, viver a vida dele, andar como Ele andou.

"...Estou crucificado com Cristo." Sentencia o apóstolo Paulo em Gl 2:19. Não somente Ele morreu por mim, mas eu também morri para os meus próprios desejos e para a minha própria concupiscência.

"Sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos." Completa Romanos 6:6.

A cruz é também o lugar de libertação. É sendo crucificado com Cristo que eu sou livre da escravidão do pecado, é morrendo o velho homem que um novo homem nasce recriado à semelhança de Cristo.

Na ocasião em que Jesus falou sobre a necessidade de comermos da Sua carne e bebermos do Seu sangue muitos se retiraram, foram embora. Estas pessoas consideraram "duro demais" o discurso de Cristo. Esta é a natureza humana, afeita somente ao que agrada, ao que não exige morte, renúncia e abnegação. Por isso essa velha natureza tem que ser cravada na cruz, por isso ela deve morrer.

Mas é preciso entender que a vida eterna é precedida pela morte, pela morte do "eu", pelo sacrifício do velho homem. "Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos." Diz Rm 6:8.

Isso não significa salvação por obras. Significa, sim, que a fé que imputa sobre mim a justiça de Cristo também opera em mim a vida de Jesus. Recebemos os méritos de Cristo, mas é preciso entender que Ele morreu a nossa morte para que vivamos a Sua vida.

A graça de Deus não é uma licença para o pecado e nem uma autorização para uma vida sem dedicação ao Reino. Paulo deixa isso claro neste mesmo cap. 6 de Romanos, quando nos versos de 1 à 4 fala: "Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida."

Ser discípulo de Cristo implica numa vida de obediência a Ele, de observância e prática da Sua Palavra. "Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo." (Lc 14:33) e "...Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos." (Jó 8:31).

Como isso é possível sem a cruz? Não há hipótese de viver a vida de Cristo sem o sacrifício, a morte, da velha natureza terrivelmente inclinada ao pecado. Paulo tinha a verdadeira dimensão do que isso significa, sabendo ele que toda a glória deste mundo não pode ser comparada com aquilo que o Senhor reserva para aqueles que foram crucificados com Seu Filho: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo." (Gl 6:14).

O que parecia duto demais aos homens que ouviram o discurso de Jesus naquele dia, continua da mesma forma. O padrão não diminuiu. É preciso ser crucificado com Jesus, é necessário beber da vida de Cristo e andar como Ele andou.

"Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim." (Gl 2:19-20).

A vida cristã tem uma coroa de glória no fim da jornada, mas no trilhar da mesma há uma cruz que não pode ser abandonada no caminho. Que não nos esqueçamos disso!

Autor: Clériston Andrade