Estudo Bíblico O Conselheiro Cristão - Parte 3


A vida espiritual do conselheiro cristão


INTRODUÇÃO
Antes de seu real encontro com o Senhor Jesus, experimentou Martinho Lutero uma profunda crise espiritual. Assaltado por dúvidas, acometido por uma forte convicção de pecado e já antevendo as penalidades eternas, fechou-se em sua cela. E, ali, passou a penitenciar-se. Açoitava-se e oprimia-se. Sentindo a miséria de uma crença baseada em tradições e viciada pela Escolástica, restava-lhe apenas uma expectativa terrível de juízo. Foi nesse momento que Lutero buscou os conselhos de um piedoso monge.

Diante da visão daquele jovem trancado em si mesmo e fustigado pelo terror do inferno, Staupitz aconselhou-o a procurar a justificação através dos méritos de Jesus Cristo. Já fortalecido por tão imprescindível verdade, Lutero saiu a reformar a Igreja. E, assim, no dia 31 de outubro de 1517, fixa as Noventa e Cinco Teses nas portas da Catedral de Wittemberg, deflagrando um movimento, que, em breve, haveria de mudar a configuração espiritual, política e cultural da Europa.

Jamais poderemos esquecer-nos da influência de Stauptz no ministério de Lutero. Se este foi um gigante na vida espiritual, aquele fora um titã na carreira cristã, pois soube como encaminhar um jovem confuso até que este, alcançando a maturidade, viesse a destacar-se como o maior homem de seu tempo.

Mas, para que venhamos a aconselhar corretamente é urgente que cultivemos a nossa espiritualidade. Desde já, comecemos por ler a Bíblia Sagrada de maneira devocional, sistemática e ordenada.
 

I. A LEITURA DA BÍBLIA

No desempenho do ministério cristão, somos tentados a ler a Bíblia com os olhos do erudito e com a mente do exegeta. Todavia, temos de encaminhar-nos às Sagradas Escrituras com a alma do peregrino que, orando e chorando, vai ao encalço do Grande Rei. Martin Anstey exorta-nos a aproximar-nos dos profetas e apóstolos de forma submissa e profundamente consternada: “A qualificação mais importante exigida do leitor da Bíblia não é a erudição, mas, sim, a rendição; não é a perícia, mas a disposição de ser guiado pelo Espírito Santo”. Isto não significa, porém, que devamos desprezar as ciências bíblicas. Que a nossa leitura prioritária, no entanto, seja a devocional.

1. A leitura devocional da Bíblia. Ao cantar as belezas e as infinitudes da Palavra de Deus, o salmista humildemente confessa: “Oh! Quanto amo a tua lei! É a minha meditação em todo o dia!” (Sl 119.97). Se o livro de texto do conselheiro é, de fato, a Bíblia, como poderá ele exercer o seu ministério se com o Livro de Deus não tiver a necessária intimidade? Diante das urgências cotidianas de suas ovelhas, o conselheiro haverá de se privar diariamente com as Sagradas Escrituras.

Que ele, por conseguinte, consagre as primeiras horas de seu dia a ler, meditar e inteirar-se das promessas da Bíblia. Você a lê e nela medita todos os dias? Ou somente a abre para esboçar mensagens e sermões? Considere a exortação de Oswald Chambers: “Cuidado com a racionalização da Palavra de Deus”. A heresia começa quando o teólogo, deixando a devocionalidade das Escrituras, põe-se a racionalizá-las como se elas fossem obrigadas a conformar-se com a lógica meramente humana.

2. Pesquisa e erudição bíblicas. Se você consegue ler a Bíblia todos os dias de forma devocional, já se encontra preparado para pesquisá-la exegética e eruditamente. Aliás, os maiores teólogos foram homens de comprovada piedade. Haja vista João Calvino. Lendo-lhe as Institutas da Religião Cristã, deparamo-nos, em primeiro lugar, com alguém que se curvava de contínuo diante do Senhor Jesus; somente, então, aparece o erudito.

Infelizmente, nem sempre a pesquisa das Sagradas Escrituras conduz o homem à piedade. A história de Renan o comprova. O cético francês empreendeu uma árdua viagem pelo Médio Oriente, tendo em mira um único objetivo: desmistificar o Cristo de Deus. Embora conhecesse intelectualmente a Bíblia, desta nada conhecia espiritualmente. Em sua busca pelo Jesus histórico, acabou por perder o Jesus da história da salvação. Como pôde este erudito conhecer tanto a Palavra de Deus e ser, por Deus, tão desconhecido?

Como você pesquisa a Bíblia? Submisso a ela? Ou racionalizando seus ensinamentos? Mesmo na pesquisa não haveremos de prescindir da piedade que, conforme enfatizou Paulo, em tudo é proveitosa. Seja um erudito. Entretanto, não se esqueça: a sua erudição tem de ser consagrada inteiramente ao Senhor Jesus.

O conselheiro bíblico não pode, sob hipótese alguma, prescindir da leitura da Bíblia, porque, no desempenho de sua tarefa, haverá de buscar conselho na fonte de todos os conselhos: as Sagradas Escrituras. Em seu último sermão à Igreja em Éfeso, afirma o apóstolo Paulo: “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos; porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus” (At 20.26,27).

Este é o nosso compromisso: ministrar à Igreja de Cristo todo o conselho divino. Doutra forma, jamais seremos tidos como conselheiros realmente bíblicos e relevantes. Sempre que se defrontar com uma situação difícil, volte-se às Escrituras; estas o ajudarão a confirmar as ovelhas do Senhor. Você constatará que a Palavra de Deus é uma fonte inexaurível de conselhos.
 

II. A ORAÇÃO

Pode haver algo mais doce que a oração? É o refúgio onde se esconde o peregrino em sua jornada à Cidade de Deus. Experimente orar pela madrugada quando o silêncio cobre a noite e abafa a agitação de um dia que não mais voltará. Ao descrever a jornada do Cristão, o escritor inglês John Bunyan descreve-o como alguém que, tendo na mão um livro, vai orando e chorando em direção à Nova Jerusalém.

Nas Sagradas Escrituras, os conselheiros tiveram uma vida de oração e intercessões amorosamente sacrificiais. Abraão, Moisés, Samuel e Jeremias não se agastavam pedindo coisa alguma para si; desgastavam-se rogando a Deus que tivesse misericórdia daqueles que, muitas vezes, rejeitavam-lhes os conselhos.

1. Abraão. O patriarca intercedeu por duas das mais pecadoras e impenitentes cidades de todos os tempos. Oraria você por Sodoma? Rogaria por Gomorra? Ele bem sabia que ambas mereciam apenas uma coisa: a pena máxima. Porém, naquele momento teve a máxima pena daqueles homens e mulheres que, estragados pelo pecado, eram incapazes de diferençar sua destra da sinistra.

O capítulo 18 de Gênesis é, sem dúvida, a passagem clássica da intercessão.

Portanto, mesmo que não haja mais esperança, intercedamos pelos que caminham em direção ao inferno. Se fomos chamados a aconselhar, também fomos convocados a interceder, inclusive por aqueles que nos ignoram as advertências.

2. Moisés. O legislador dos hebreus aconselhou o povo até consumir-se no Sinai. Do nascer ao pôr do sol, punha-se à disposição do povo para aconselhá-lo, estressando tanto a si próprio quanto à congregação. Continuasse daquele jeito, acabaria por comprometer a qualidade de seus conselhos. Não é o que estamos a constatar em nosso ministério? Se até aquele momento, aconselhava, teria agora de ser aconselhado. Sugere-lhe, então, Jetro, seu paciente e observador sogro, a escolher varões de comprovada reputação e sabedoria para ajudá-lo naquele mister.

Em Israel, muitos podiam aconselhar como Moisés aconselhava; mas ninguém seria capaz de interceder como intercedia Moisés.

Pecando os israelitas, o conselheiro dá lugar ao intercessor. E, pondo-se já entre Deus e o povo, roga e arrisca-se por este. Num dado momento, ante a expectativa de o Senhor destruir a semente de Abraão, insta-lhe: “Agora, pois, perdoa o seu pecado; se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32.32). Foi a mais ousada intercessão da História Sagrada. E como era um homem que conversava face a face com o Senhor, sua intercessão ultrapassou os limites da coragem e do amor.

Como intercede você em favor daqueles que lhe procuram os conselhos de Deus? Limita-se a dar-lhos? Ou coloca-se no ilimitado terreno da intercessão onde nenhuma lágrima é demasiada e nenhum soluço é o bastante. Seja amoroso nos conselhos; na intercessão, ousado.

3. Samuel. Num momento em que Jeremias clamava em favor dos filhos de Judá, que, já adiantados em rebeliões e apostasias, não mais reconheciam a voz profética, responde o Senhor ao seu mensageiro: “Ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, não seria a minha alma com este povo; lança-os de diante da minha face, e saiam” (Jr 15.1). Moisés e Samuel! Eis os dois maiores intercessores do Antigo Testamento. Colocou-os Deus na História Sagrada, a fim de que mostrassem, aos santos de todas as épocas, o valor de uma intercessão realmente amorosa.

Samuel era um intercessor tão cônscio de suas obrigações que supunha estar pecando caso não rogasse a Deus por seu povo: “E, quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós; antes, vos ensinarei o caminho bom e direito” (1Sm 12.23). Apresenta-se, pois, o profeta não apenas como intercessor, mas também como conselheiro do povo hebreu. O que nos mostra esta passagem? Como conselheiros, não nos restrinjamos ao gabinete; vamos além: avancemos sobre o altar da oração onde, diuturnamente, estaremos a rogar pelos que nos procuram uma palavra de orientação. Conselho sem oração pouco efeito tem; acompanhado de intercessões e súplicas, opera maravilhas, mesmo restringindo-se a uma única palavra.

4. Jeremias. Nenhum profeta sofreu tanto quanto Jeremias. Bem jovem ainda foi chamado a profetizar aos filhos de Judá, que, à semelhança dos israelitas do Reino do Norte, haviam apostatado de sua fé e agora achavam-se prestes a ter um destino semelhante ao de seus irmãos setentrionais. Deus haveria de desarraigá-los daquela boa e pródiga terra, e metê-los num país dominado pela maldade e pelas mais abjetas abominações.

O profeta, no entanto, embora soubesse ser o castigo divino inevitável, põe-se a interceder pelos filhos de Judá. Ele de tal forma perturba os céus, que leva o Senhor Deus a repreendê-lo por aquele impertinente rogo: “Não rogues por este povo para bem. Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor e quando oferecerem holocaustos e ofertas de manjares, não me agradarei deles; antes, eu os consumirei pela espada, e pela fome, e pela peste” (Jr 14.11,12).

Intercederia você por alguém que já estivesse prestes a ser rejeitado por Deus?

Que o Senhor julgaria o Reino de Judá, não havia qualquer dúvida. Jeremias, porém, insta-lhe em favor dos judeus e por eles derrama a sua alma. Interpõe-se ele, aliás, entre um Deus irado e um povo impenitente. Falhou o intercessor? Ignorou-o Deus? Passados setenta anos, eis que volve o Senhor a sua misericórdia a Judá, trazendo-o de volta à terra que mana leite e mel (Jr 25.11). Nenhuma intercessão é inútil.

5. Jesus. Como não ler o capítulo 17 de João sem derramar lágrimas? Ali, o Filho de Deus, já vivendo a agonia e a dor de sua paixão, põe-se a interceder pelos seus discípulos, pela Igreja e por aqueles que a esta viriam juntar-se. E a intercessão que fez em favor de Pedro: “Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo. Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos”? (Lc 22.31.32).

Se Jesus, por um lado, foi o Maravilhoso Conselheiro, por outro, mostrou-se como o inimitável intercessor.

Tem você intercedido por aqueles a quem aconselha? Ou a sua obrigação termina justamente no final da sessão de aconselhamento? Você não é um mero profissional do conselho. À semelhança daqueles médicos de família, acompanhe a evolução espiritual e emocional de suas ovelhas; não se descuide delas.
 

III. A FIDELIDADE À SÃ DOUTRINA

Ao contrário dos psicólogos meramente humanistas que optam por esta ou por aquela escola, o conselheiro cristão tem de estar plenamente comprometido com a sã doutrina. Afinal, de sua teologia é que serão erguidas as bases das orientações que haverá de ministrar às ovelhas de Cristo. Escrevendo ao jovem pastor Timóteo, o apóstolo Paulo prescreve-lhe: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1Tm 4.16).

Se o conselheiro não acreditar em Deus, como haverá de assegurar a alguém desesperado que o Todo-Poderoso está no comando de todas as coisas? Se não crer na infalibilidade das Sagradas Escrituras, como poderá recomendar-lhe a leitura àqueles que necessitam de se alimentar diariamente com a Palavra de Deus? Se não professar a Jesus Cristo como o único e suficiente Salvador, como terá condições de prescrever esperança aos que se acham à beira do abismo? Se não estiver convicto a respeito da vida eterna, como lidará com a alma humana, que, à semelhança da corça, suspira pelas correntes das águas? E, se não acreditar no céu, como haverá de ministrar o alento de vida eterna aos que estão prestes a deixar a terrenal?

Antevendo o ministério de Timóteo nessa área tão delicada do ofício pastoral, Paulo insiste: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina”. O que significa esta recomendação? Em primeiro lugar, que temos de dispensar à doutrina o mesmo cuidado que dedicamos ao nosso bem-estar físico. Se não o fizermos, jamais teremos condições de exercer o ministério do aconselhamento cristão.

Já imaginou um conselheiro desprovido de doutrina? Sem o alicerce da verdadeira teologia? O que esperar de tal obreiro? Um ministro assim, perdido em si mesmo, precisa ser rapidamente aconselhado a que busque urgentemente o Senhor, e mergulhe nas Sagradas Escrituras, a fim de compreender todo o conselho de Deus.
 

IV. A FIDELIDADE À IGREJA

Deve o conselheiro conscientizar-se de sua responsabilidade não apenas diante da Bíblia Sagrada, mas também ante a sua convenção e igreja local, pois estará trabalhando preciosas vidas que, restauradas, por-se-ão a serviço do Corpo de Cristo e não à sua mercê.

Se você foi chamado para o serviço de aconselhamento, exerça humildemente o seu ministério e jamais presuma, de si mesmo, ser alguma coisa. Tem você experiência? Demonstre-a através de uma vida fiel e dedicada à sua igreja. Jamais deixe de ser leal ao seu pastor. Conselheiro, tenha-o por conselheiro.
 

V. A VIDA FAMILIAR

Não são poucos os conselheiros que vivem um ministério hipócrita e desprovido de resultados concretos. Ensinam o amor entre os cônjuges, mas tratam a esposa com rispidez e tirania. Prescrevem a fidelidade, porém são infiéis à companheira de sua mocidade. Exortam os pais a que façam o culto doméstico, contudo raramente estão em casa para cultuar a Deus em família. Afinal, sua agenda requer que estejam sempre ausentes da esposa e dos filhos.

Que condições reúne tal conselheiro para socorrer as famílias alheias? Se alguém não cuida de sua própria casa terá cuidado da Casa de Deus?

Ouvi, certa vez, a história de um conselheiro, que, para os de fora, vendia a imagem de um marido honrado, de um pai extremoso e de um sacerdote que jamais se descuidara do bem-estar moral e espiritual de sua família. Sua esposa, porém, confidenciou a uma amiga estar cansada de tanta brutalidade. No púlpito, um santo; no gabinete pastoral, principalmente quando atendia as irmãs, gentil e cavalheiro. Todavia, não passava de um engodo. Ao invés de aconselhar, carecia de conselhos.

Um conselheiro pastoral não haverá de descurar-se quanto à sua reputação doméstica, porque o Senhor Jesus requer estejamos nós em perfeita sintonia com Deus e com a sua Palavra. Sem tais requisitos, pode haver tudo, menos conselho.

É a vida familiar do conselheiro o seu cartão de visitas, o seu melhor marketing. Se a esposa e os filhos dão-lhe testemunho, todos poderão depositar nele irrestrita confiança. 
 
CONCLUSÃO
Se você deseja, de fato, dedicar-se ao aconselhamento pastoral, busque aprimorar-se espiritualmente; ore, leia a Bíblia, tenha os seus momentos devocionais; adore a Deus com o seu trabalho, e não somente com a sua voz. Em santidade, entregue-se ao serviço das ovelhas de nosso Senhor.

Agindo assim, você será bom ministro de Cristo Jesus. Não importa quão erudito e culto seja você; não importam os seus diplomas nem as suas credenciais; o mais importante é que todos o reconheçam como um autêntico homem de Deus. E, como Josué, possa você afirmar ousadamente: “Eu e a minha serviremos ao Senhor”.

| Autor: Pr Claudionor de Andrade | Divulgação: EstudosGospel.Com.BR |


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