Bem-aventuranças - A Força da Fraqueza


A segunda afirmação básica das bem-aventuranças é que o reino de Deus não se entrega aos "poderosos", que procuram tomá-lo pela força, mas é facilmente acessível aos "fracos" que, pacientemente, entregam sua causa a Deus e abandonam seus próprios direitos em favor dos outros. O mundo no qual as bem-aventuranças foram ditas pela primeira vez não era um lugar hospitaleiro para tal idéia. Sêneca, um filósofo estóico proeminente do primeiro século e irmão de Gálio (Atos 18:12), deu expressão ao sentimento do seu tempo nas seguintes palavras: "Piedade é uma doença mental, induzida pelo espetáculo da miséria alheia . . . O sábio não sucumbe a doenças mentais dessa espécie" (Arnold Toinbee, Uma Abordagem da Religião por um Historiador, pag. 68). Totalmente fora do espírito do seu tempo, Jesus anunciou a bem-aventurança do manso, do misericordioso, dos pacificadores e dos perseguidos. Não era uma idéia "cujo tempo tivesse chegado." E ainda não é.

"Bem-aventurados os mansos" (Mateus 5:5). Num mundo de aspereza e crueldade, a mansidão pareceria uma maneira rápida de cometer suicídio. Os violentos e os teimosos prevalecem. Os mansos são sumariamente atropelados. A verdade é que, a curto prazo, isto poderá ser assim mesmo. As pessoas que são recolhidas para o reino de Deus têm que enfrentar isso. A gentileza de Jesus não o salvou da cruz. Mas, no final, Jesus nos ensina que é somente a mansidão que sobreviver. O desafio para nós é entender o que é a verdadeira mansidão.

Mansidão não é uma disposição natural. Não é um temperamento suave inato. Não é o comportamento obsequioso do escravo, cujo estado de impotência força-o a adotar um modo servil, que ele despreza e que abandonaria na primeira oportunidade. Mansidão é uma atitude para com Deus e os outros que é produto da escolha. É a disposição mantida por uma resolução moral férrea, ao mesmo tempo em que se pode ter o poder e a inclinação para se comportar diferentemente.

Mansidão não é indiferença ao mal. Jesus suportou com muita paciência os ataques que lhe fizeram, mas foi forte para defender o nome e a vontade do seu Pai. Ele odiava a iniqüidade tanto quanto amava a justiça (Hebreus 1:9). Moisés era o mais manso dos homens quando se tratava de injúrias contra ele (Números 12:3), mas sua ira queimava como fogo contra a irreverência para com Deus (Êxodo 32:19). O homem manso pode suportar maus tratos pacientemente (ele não é interessado em auto-defesa), mas não é passível referente ao mal (Romanos 12:9). Há nele um ódio ardente a todos os caminhos da falsidade (Gálatas 1:8-9; Salmo 119:104).

Mansidão não é fraqueza. Não há frouxidão nela. Aquele que tinha 72.000 anjos sob seu comando (Mateus 26:53) descreveu-se como "manso e humilde de coração" (Mateus 11:29). A profundidade da mansidão em um homem pode na verdade ser medida em proporção direta com sua capacidade para esmagar seus adversários. Jesus não era manso porque ele fosse impotente. Ele era manso porque tinha seu imenso poder sob controle de grandes princípios: Seu amor por seu Pai (João 14:31) e seu amor pelos homens perdidos (Efésios 5:2). Teria sido muito mais fácil para ele ter simplesmente aniquilado seus antagonistas do que suportar pacientemente suas ofensas. Ele seguiu a estrada difícil.

A mansidão do Filho de Deus é poderosamente demonstrada pela sua atitude quanto aos privilégios de seu estado ("pois ele subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou," Filipenses 2:6-7), e em sua submissão a seu Pai ("embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas cousas que sofreu," Hebreus 5:8). Ele veio ao mundo como um servo. Ele esvaziou-se pelo benefício dos outros.

Ainda que a mansidão do reino derive de uma nova visão de si mesmo na presença de Deus ("pobre de espírito") sua ênfase primária está na visão de um homem na presença de outros. "Mansidão" (Grego, praus) é encontrada na companhia constante de palavras tais como "humildade," "benignidade," "paciência," "cortesia" e "brandura" (Efésios 4:2; Colossenses 3:12-13; 2 Timóteo 2:24-25; Tito 3:2; 2 Coríntios 10:1). Mesmo quando aplicada a nosso Salvador, a palavra parece falar de seu relacionamento com os homens antes que com seu Pai (Mateus 11:28-30; 2 Coríntios 10:1). "Mansidão (praus) tinha um uso especial no mundo grego antigo. Ela era aplicada ao animal que havia sido amansado" (Barclay, Palavras do Novo Testamento, pag. 241). O homem manso é o que foi amansado para o jugo de Cristo (Mateus 11:29), e, conseqüentemente, tomou sobre si os fardos dos outros homens (Gálatas 6:2). Ele não mais tenta tomar pela força nem mesmo aquilo que é seu por direito, nem tenta vingar as injustiças feitas a ele, não porque ele seja impotente para fazer isto, mas porque ele submeteu sua causa a um tribunal superior (Romanos 12:19). Em vez disso, ele está preocupado em ser uma bênção, nao só para seus irmãos (Romanos 15:3), mas até mesmo para seus inimigos (Lucas 6:27-28).

O homem manso já se cansou de si mesmo. Ele sentiu sua máxima vacuidade espiritual e anseia por um correto relacionamento com Deus. Justiça própria tornou-se um desastre e vontade própria uma doença. As próprias idéias de auto-confiança e auto-determinação se tornaram um fedor para suas narinas. Ele esvaziou seu coração de si mesmo e o preencheu com Deus e os outros. Como seu Mestre, ele se tornou o servo dos servos. E por esta própria razão o futuro lhe pertence.

Autor: Artigo recebido por email


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